Por Dr. William Flynn
(vizualização conceitual do projeto Graphic Novel)

A popularidade de graphic novels cresceu rapidamente nas ultimas duas décadas. Mais e mais indivíduos tem usado a mídia gráfica e em quadrinhos em maneiras cada vez mais diversas e interessantes, e em formas que diferem consideravelmente do uso mais típico do conto fictício, ou historias (auto) biográficas e memórias.  Apesar de não ser, de forma alguma, uma seleção completa, a seguinte breve descrição das graphic novels ajuda a ilustrar como graphic novels tem sido utilizadas para propósitos pedagógicos através de uma grama de matérias e tópicos.

Graphic novels são cada vez mais usadas na sala de aula como ferramentas de ensino (Syma and Weiner 2013) e possuem o potencial de alcançar audiências grandes e diversas e disseminar conhecimento sobre assuntos históricos, sociais, e políticos. Isto é demonstrado de modo aparente na seguinte visão geral.

Nos anos 90, houve  uma enorme quantidade do tipo de ensaios gráficos ‘Para Principiantes’ que visava explicar as idéias centrais de pensadores influentes como Marx, Foucault, Hegel, etc. Seu objetivo era simplesmente tornar as idéias de pensadores famosos mais acessíveis e compreensivas para um público amplo e não-acadêmico, assim como figurar como guias principiantes para estudantes lendo os textos originais.

Em 2005, Will Eisner escreveu  The Plot: The Secret Story of the Protocols of the Elders of Zion, explorando a história de uma falsificação notória anti-semita: os Protocolos dos Anciões de Sião. A escolha de Eisner em combinar uma história interessante de forma gráfica, combinada com referências históricas e citações culminou em um sério ensaio histórico (em formato gráfico) sobre as origens históricas e os usos políticos dos Protocolos.

Em 2004, a Comissão de 9/11 publicou um relatório robusto de 600 páginas: o “911 Commission Report,” o qual detalhava e explorava as várias causas dos ataques terroristas de 11 de setembro nos EUA. No ano seguinte, Sid Jacobsen e Ernie Colon publicaram The 911 Report: A Graphic Adaptation. A jornalista Bravetta Hasell resumiu o objetivos pedagógicos dos autores de forma sucinta quando escreveu para o Washington Post “O livro condensa as quase 600 páginas do relatório federal publicado pela Comissão Nacional sobre Ataques Terroristas aos Estados Unidos em quase 150 páginas, e os criadores dizem esperar que seu livro ajude atrair leitores jovens e outros que se sintam  sobrecarregados pelo documento original.” overwhelmed by the original document”. Ao usar o formato gráfico, o 911 Report: A Graphic Adaptation é talvez o exemplo mais claro de como grandes quantidades de texto e material podem ser re-apresentadas em uma forma que possa alcançar uma audiência maior e que possa narrar eventos reais de uma maneira mais atrativa visualmente.

Um dos usos mais inovadores da mídia gráfica para propósitos educacionais tem sido o jornalismo gráfico de Joe Sacco. Footnotes in Gaza (2009), Safe Area Goražde: The War in Eastern Bosnia 1992-1995 (2000), são duas de várias graphic novels de jornalismo investigativo produzidas por Sacco. Mais recentemente, Joe Sacco e Chris Hedges publicaram Days of Destruction, Days of Revolt, o qual entrelaça várias etnografias jornalísticas por Hedges com extensas vinhetas gráficas por Sacco que narram visualmente as experiências e histórias das pessoas envolvidas.

Em 2011, Chester Brown, um conhecido graphic novelist canadense, publicou Paying For It: A comic strip memoir about being a John, o qual detalha suas experiências na compra de sexo, o que também é entrelaçado com argumentos aprendidos para a legalização do trabalho sexual no Canadá. Sua graphic novel histórica Louis Riel, de 2003, explora a vida e morte do lider rebelde metis e o papel histórico do mesmo nas várias rebeliões no Canadá pré-confederação.

Em 2011, Brooke Gladstone, da Rádio Pública Nacional dos EUA, escreveu The Influencing Machine, o qual é essencialmente uma palestra sobre a mídia em massa, explorando teorias e idéias relacionadas em formato gráfico. Similarmente, começando em 2010, George S. Rigakos passou a publicar vários volumes do Manifesto Comunista Ilustrado, uma interpretação visual da obra-prima de Marx e Engels.

Há numerosos exemplos não mencionados aqui, mas a partir da seleção acima, podemos concluir que o uso de graphic novels para fins educativos pode ser um esforço que vale a pena e, mais importante, pode servir para divulgar e re-apresentar formas de conhecimento e de pensamento para um público mais amplo.Howard Becker produziu uma série de livros sobre este mesmo tema. Em ‘Telling about Society’ (2007), Becker descreve as muitas maneiras em que o conhecimento ‘acadêmico’ pode ser representado em uma variedade de formas. Ele argumenta que o conhecimento, como os resultados de um projeto de pesquisa, pode ser representadas em diferentes formas e que, dependendo do leitor, há maneiras melhores e piores de representação do conhecimento ‘ou o contar sobre a sociedade.’ O truque é escolher a mídia e forma de representação que melhor se encaixa nos propósitos e reconhecer que sempre que escolher uma forma em vez de outra para representar conhecimento há tanto vantagens quanto desvantagens, um ponto enfatizado por Scott McCloud seu livro gráfico seminal Understanding Comics: The Invisible Art (1993), em que ele foca em como quadrinhos gráficos podem fazer certas coisas que a mídia escrita não consegue devido ao seu foco em texto somente.

Conhecimento antropológico, e etnografias em especial, são bastante próprias para adaptação gráfica. Um dos objetivos principais de qualquer etnógrafo é proporcionar seus leitores com um senso do próprio lugar e também das histórias que emergem no processo de entrevistas e observação. Days of Destruction, Days of Revolt  de Sacco e Hedges proporciona um modelo útil para pensar em maneiras como relatos etnográficos escritos podem ser combinados com uma releitura gráfica das histórias dos entrevistados de uma forma significativa e esclarecedora. Além disso, os antropólogos muitas vezes lutam para encontrar maneiras de compartilhar seus resultados de pesquisa com os participantes. Graphic novels apresentam a possibilidade de fazer uso dos dados recolhidos para produzir formas mais acessíveis de representar a pesquisa – ainda mais ao evitar os danos potenciais de outros métodos visuais, permitindo aos participantes o anonimato.

Reconhecendo que a maioria dos sujeitos de etnografias tendem a não ter pós-graduação em antropologia, uma versão gráfica de um projeto de pesquisa etnográfica pode ser um método através do qual as conclusões de conhecimento e de pesquisa são compartilhadas e tornadas mais amplamente disponíveis – uma forma de pedagogia crítica com  potenciais transformadores.